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Caranguejo azul: Estudo de telemetria acústica


O caranguejo azul "Callinectes sapidus" apareceu no Algarve pela primeira vez em 2016 na Ria Formosa e desde então tem vindo a aumentar exponencialmente em abundância e distribuição geográfica. De acordo com trabalhos realizados na sua zona nativa (Atlântico Oeste), durante o período de reprodução as fêmeas deslocam-se para jusante dos estuários, para zonas costeiras mais salinas para desovarem. As larvas permanecem algumas semanas no mar, onde efetivamente necessitam de condições mais salinas nos primeiros estágios de desenvolvimento. Após se transformarem num mini-caranguejo azul, as larvas assentam já no estágio de megalopa. De seguida os juvenis sobem os estuários para zonas salobras, podendo mesmo ser encontrados em áreas de muito baixa salinidade. Chegando à idade adulta, e após algumas mudas de carapaça, a espécie volta a migrar para zonas mais baixas dos estuários e zona costeira, repetindo-se este ciclo. O ciclo de vida e migrações desta espécie invasora dificultam ainda mais a sua gestão, uma vez que ocupam diferentes ecossistemas ao longo do seu ciclo de vida.


A telemetria acústica já ajudou a responder a várias questões científicas em ambientes aquáticos relacionadas com movimentações de espécies, desde tubarões brancos, tartarugas, corvinas, salmões, etc. Um sistema de telemetria acústica passiva é constituído por dois tipos de equipamentos:


1) Os emissores que são colocados nos animais e emitem um sinal de rádio com um determinado código de sinais que permite distinguir os vários indivíduos marcados;

2) Os recetores acústicos, que são como microfones subaquáticos e registam os sinais emitidos pelos emissores. Naturalmente o raio de deteção é limitado, dependendo este de vários fatores, tais como o local e forma de instalação, turbidez da água, etc. Desta forma, quanto maior a rede de recetores, melhor a capacidade de deteção da rede de telemetria.


Os trabalhos iniciaram-se com a instalação de dois recetores acústicos na zona do médio estuário do Guadiana no início de Maio de 2022, seguindo-se a campanha de marcação entre Junho e Agosto. Cada caranguejo é equipado com um pequeno transmissor que será detetado pelos vários recetores instalados ao longo do estuário do Guadiana e da costa Algarvia. O caranguejo azul, tal como qualquer outro caranguejo, muda periodicamente de carapaça para permitir o seu crescimento, pelo que a fixação destes equipamentos de pequena dimensão não afeta o bem-estar de cada indivíduo. A informação recolhida permitirá saber onde vivem estes caranguejos e durante quanto tempo vivem em cada habitat para assim se proporem medidas de gestão mais eficazes para o controlo desta espécie invasora. Embora a recaptura destes caranguejos por pescadores amadores ou profissionais seja pouco provável, pedimos que nos contactem pelo número de telefone inscrito na etiqueta acoplada ao caranguejo, ou pelos meios de contacto da campanha de ciência cidadã NEMAlgarve (https://nemalgarve.com/contactos).




Um agradecimento especial ao Ricardo Gonçalves, pela ajuda na captura de alguns dos caranguejos azuis utilizados. Este estudo tem o apoio financeiro do projeto transfronteiriço ATLAZUL (www.atlazul.eu)